Lee Iacocca retorna em “A Favorita”
Jornalistas e empresários não costumam ser bem tratados pelos autores de novelas. Os primeiros são sempre apresentados como vampiros à caça de uma foto ou declaração ou, então, como robôs que se limitam a gravar o que dizem os entrevistados. Os segundos, tipos corruptos e exploradores, parecem ter saído do discurso de um militante do PSTU.
A Favorita tem um jornalista e um empresário. Zé Bob é um repórter que faz denúncias políticas e no dia seguinte cobre leilões de cavalos. Da redação fake em que trabalha só se salva o talento, pouco explorado, de Rosi Campos, sua chefe. Gonçalo Fontini bem que poderia ser, finalmente, o empresário boa praça, mais para Antonio Ermírio do que para um daqueles que andam com algemas por aí. Mauro Mendonça é um excelente ator, mas não consegue convencer com um personagem inverossímil.
Fontini construiu um enorme complexo de papel e celulose, que administra praticamente sozinho. Seu braço-direito – e único – ora recebe visitantes ilustres, ora vigia operários relapsos. Seria um exemplo raro do profissional generalista que os headhunters têm tanta dificuldade em encontrar?
Em vez de se preocupar com a queda do dólar, que afeta as exportações, ou com a Via Campesina, capaz de destruir suas mudas de eucalipto, Fontini passa os dias vigiando a patroa ou mandando seguir a neta.
Evitar empregar gente da família é coisa desses chatos que só falam em governança corporativa. Para comandar a área de comunicação, ele contrata sua quase nora Flora, ex-cantora sertaneja que passou 18 anos atrás das grades. Mas, tudo bem, comunicação é mesmo um assunto que qualquer um pode dominar, até parente ou contraparente. Basta ler uns poucos livros, entre um banho de sol e outro na prisão.
Gonçalão também lê. Atualmente, está mergulhado em Uma Autobiografia, de Lee Iacocca, o ex-chefão da Ford e da Chrysler. É verdade que o livro foi lançado por aqui em 1985 e se tornou um best-seller que nenhum empresário do seu porte deixaria de ler. Vocês com certeza vão pensar que nosso herói não anda com sua leitura em dia, mas eu imagino que a intenção do autor da novela tenha sido outra: mostrar que os negócios passam e Iacocca fica.
Eu concordo. Gosto especialmente do trecho em que os herdeiros da Ford, Henry e seu irmão Bill, convocam Iacocca, o presidente da companhia, para uma conversa daquelas que começam com um “chega um dia em que é preciso mudar” e terminam com alguém carregando caixas no estacionamento. Mas gosto ainda mais da resposta dele: “Nós acabamos de conseguir 1,8 bilhão de dólares pelo segundo ano consecutivo. Guarde minhas palavras, Henry. Pode ser que você jamais veja essa quantia outra vez. E sabe por quê? Porque você não sabe porra nenhuma o que é preciso fazer para isso.”
Pode ter sido apenas ressentimento. Ou o sangue italiano falando mais alto e clamando por vendetta. Mas as dificuldades que a Ford tem enfrentando mostram que Iacocca não exagerava. E que reler seu livro não faz mal para empresário nenhum. Das novelas ou da chamada vida real.



