Olimpíada: as bolas fora do Wall Street Journal

Posted on Agosto 25, 2008. Filed under: Uncategorized | Tags: , , , , , |

Minha tia Mildred, de Milwaukee, está indignada. Apostou  com o chinês da casa de verduras de seu bairro que os americanos sairiam de Pequim com mais medalhas de ouro do que a China. A raiva dela não é contra os chineses, sejam atletas ou verdureiros. É contra o Wall Street Journal, uma das mais conceituadas publicações de economia e negócios, que consulta diariamente para acompanhar o desempenho de suas ações, adquriridas depois de se aposentar na Sears, onde foi vendedora, caixa e, finalmente, chefe da seção de perfumaria.

 

Tia Mildred sempre se baseou nas previsões do WSJ e, com base nelas, fez bons negócios, que permitiram trocar o seu pequeno apartamento no centro da cidade por uma mansão em North Shore, perto do Lago Michigan. É lá que recebe as amigas, todas viúvas, com pequenas economias e eleitoras do McCain.

 

O jornal previu – e tia Mildred confiou – que os americanos ganhariam, tanto em medalhas de ouro quanto no cômputo geral. Claro que a maior aposta, Michael Phelps, o tsunami das piscinas, não decepcionou e voltou para casa com as oito medalhas esperadas. Foi um dos poucos acertos.

 

Para fazer seus cálculos, o jornal levou em conta os resultados das últimas competições internacionais e a opinião de professores, economistas e especialistas, alguns deles com fundamento em projeções matemáticas. Não funcionou. O erro mais grosseiro foi no softbol.  Quatro vezes campeãs olímpicas e vitoriosas no último torneio mundial por 76 a 1, as americanas acabaram desbancadas pelas japonesas. Na ginástica artística, a equipe dos Estados Unidos ,considerada com as mesmas chances que os chineses, levou uma lavada e ficou com apenas dois ouros, frente a nove dos donos da casa. Na natação e no atletismo, a expectativa era levantar 29 ouros: no final, foram 10 a menos.

 

Do alto de seus 96% de acertos em 2000 e 2004, Andrew Bernard, professor de economia internacional da Faculdade de Administração Tuck, do Dartmouth College, foi um dos poucos entrevistados a sustentar que a China ficaria em primeiro lugar, com 37 medalhas, uma a mais que os americanos. Acertou no segundo caso. mas passou longe no primeiro – os chineses estiveram no alto do pódio 51 vezes.

 

O WST não se enganou apenas ao superestimar a força olímpica do país. Falhou também no reconhecimento da capacidade de alguns de seus atletas. Depois da desastrada estréia da seleção feminina de futebol, que perdeu de dois a zero da Noruega, o jornal anunciou o fim da hegemonia dos Estados Unidos nessa modalidade. O gol de Carli Lloyd contra as brasileiras mostrou que não é bem assim.

 

Tia Mildred perdeu 50 dólares e a primeira aposta em seus 85 anos. Agora está com receio de que o pessoal ouvido na matéria também seja entrevistado pelo WSJ para falar sobre economia e investimentos. Por via das dúvidas, cancelou a assinatura. É uma forma, me contou, de reduzir o seu prejuízo. Ah, tia Mildred ainda não acabou de pagar a casa nova e tem pesadelos com a crise do subprime.

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    Mario Blander é jornalista. Foi redator-chefe de Exame, trabalhou em Veja e Istoé e atualmente atua na área da comunicação empresarial

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