O Cultura Artística e o painel de Di Cavalcanti
A destruição do Cultura Artística, provocada por um incêndio na semana passada, foi uma tragédia para São Paulo. Não só porque tirou do roteiro do teatro e da música uma das mais importantes casas da cidade, mas também pela perda de um grande marco arquitetônico, assinado pelo consagrado Rino Levi, que projetou o Hospital Albert Einstein e a arrojada sede da Fiesp, na Avenida Paulista. A Sociedade de Cultura Artística, presidida por José Mindlin, já está trabalhando em um projeto de recuperação, mas é provável que o trabalho se estenda por anos.
O desastre só não foi maior porque o mosaico da fachada, criado por Di Cavalcanti, sofreu poucos danos. Chamada Alegoria das Artes, é uma das várias marcas que o artista deixou em São Paulo – outras delas são o afresco para a fábrica da Duchen, na Via Dutra, já demolida (que fim terá levado a obra?), o painel Imprensa na rua Major Quedinho, antiga sede do Estadão, hoje ocupada pelo jornal Diário de S. Paulo, o da fábrica Probel e vários outros trabalhos para edifícios comerciais e residenciais.
O painel do Cultura Artística, com 48 metros de largura por 8 de altura, tem cerca de 1,2 milhão de tesselas, nome técnico das pastilhas de vidro produzidas artesanalmente. Uma reportagem da jornalista Mônica Manir, publicada neste domingo pelo jornal O Estado de S. Paulo, chama o painel de “musa da resistência” por ter sobrevivido ao tempo, à poluição do centro da cidade, à mudança do cenário original da região, em que os velhos casarões deram lugar a prédios, à deterioração da área e, finalmente, ao fogo.

O mesmo pode ser aplicado à Vidrotil, que trabalhou na montagem do mosaico e deverá ser responsável pelos reparos na obra. A Vidrotil tinha apenas três anos quando se envolveu nesse projeto -só a instalação das tesselas consumiu cerca de dois meses -, em 1950. Cresceu com a febre da pastilha, que tomou conta da cidade por várias décadas, enfrentou tempos duros após o desaparecimento delas e nos últimos anos ganhou fôlego com a tendência dos mosaicos de vidro nos revestimentos.
A empresa tem uma fábrica na região do ABC com profissionais especializados em cortar e montar, uma a uma, as peças de vidro. Chegou a endereços nobres no país, como o hotel Unique, em São Paulo, e no exterior. É da Vidrotil o revestimento do spa do hotel Delano, em Miami, e da piscina da atriz Courtney Cox, a Monica, de Friends. Atualmente a empresa investe em ações de marketing e no reforço de sua equipe de vendas, com o objetivo de aumentar o faturamento em 200% até 2010.
Os trabalhos artísticos nunca foram abandonados. Entre os exemplos estão a restauração do afresco Três Graças, de Victor Brecheret, um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, do mosaico de Estrigas para a sede do grupo cearense J. Macêdo, e do painel de Aldemir Martins para a fachada do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza.
Resistente como o mosaico de Di Cavalcanti, a Vidrotil é um caso empresarial que combina persistência, qualidade, sintonia com o mercado e inovação.


