O homem que deu um banho de loja nos chineses
Uma pesquisa revela que a grife mais desejada na China, o novo paraíso da indústria do luxo, é Versace. A informação me traz um pesadelo: vejo multidões de chinesas platinadas como Donatella Versace em modelitos parecidos com os que a nossa ex Rosane Collor assombrava as festas aqui e lá fora. Tudo bem, os tempos mudaram e Versace virou etiqueta de ídolos pop como Madonna, mas saber que está à frente da elegância discreta de uma Chanel, ainda que por margem estreita, soa para mim como mais um dos sinais do apocalipse.
Na mesa do café da manhã em que se comenta a invasão das grandes marcas, antigas agentes do imperialismo – o tigre de papel, como dizia Mao –, eu lembro que essa onda começou com Pierre Cardin. Sinto assombro em olhares jovens. Sim, confirmo, ele foi o primeiro a desembarcar em Pequim, em 1979, só um ano depois do início das reformas econômicas que abriram a China para o mundo. A perplexidade continua no ar. Não pela informação, mas pela desimportância dada a ela.
Cardin virou literalmente old-fashioned. Desde que deixou de vestir celebridades para emprestar seu nome a colchões, meias, isqueiros e outros itens vulgares, ficou mal visto pelo mundo da moda e foi rebaixado de bistrô a uma espécie de Mcdonald´s. No mercado brasileiro, essa popularização foi longe: nos anos 80, a Vila Romana, depois de ganhar muito dinheiro com ele, elegeu Calvin Klein para vender jeans para as faixas de maior poder aquisitivo e deixou a etiqueta Pierre Cardin para calças destinadas a traseiros mais habituados a buzões do que a grandes máquinas.
Mas Cardin continua vivo, merci. Aos 86 anos, acaba de apresentar sua nova coleção, não mais nas passarelas de Paris, que já não têm lugar para ele, mas em sua casa na Riviera. Os jornais brasileiros ignoraram, mas o assunto foi destaque especialmente na Ásia, em meio ao furacão que abala as bolsas.
Pierre Cardin pode não ser a grife número um nas preferências dos novos milionários de olhos puxados, mas continua entre as campeãs em vendas. E seu criador pode não ser um mestre da moda, mas é, com certeza, um gênio dos negócios. O mago que teve a visão de que estava nascendo o maior mercado do planeta e chegou na frente, ajudando os chineses a trocar o cinza pelas cores. Sarkozy? Zidane? Gaultier? Que nada, Cardin é o segundo francês mais conhecido na China. O primeiro posto continua com De Gaulle.
Eu tenho um nome, por que não tirar vantagem dele”, já dizia há quase 50 anos, quando foi expulso da Chambre Syndicale, que reúne os grandes criadores, por vender sua coleção prêt-à-porter na popular cadeia de lojas Printemps. Anos depois, quando a entidade voltou atrás e não só readmitiu como elegeu Cardin para comandá-la, ele já era o mais empreendedor dos estilistas de todos os tempos, uma megaestrela dos negócios.
Não faz muito tempo, Maryse Gaspard, sua primeira assistente na Maison Cardin, foi flagrada fazendo compras em Nova York com casaco H&M e sapatos Marc Jacobs, dois ícones da moda contemporânea. Mas com ela estava sua mãe, vestida de Cardin da cabeça aos pés. Ao contrário da música de Chico Buarque, o estilista bem poderia dizer para essas moças e moços – “vocês não gostam de mim, mas suas mães gostam”. Aqui, ali e, principalmente, na China.
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